Cheiro de Mar
Só para maiores.
Primeiro conto erótico do ano — com algum atraso, mas com muito tesão.
De longe, ainda parece uma novinha. Exatamente como ela disse que seria, em uma época que ainda tinha medo de envelhecer.
Agachada e remexendo na terra perto da cerca, com o meio da bunda marcado no shorts de algodão e as mãos sujas de lama, Verônica desconhece o tempo do relógio. Tampouco se lembra do tempo das marés, agora distantes do outro lado da ilha.
Os minutos são contados pelos cheiros e preparos na cozinha. As horas, pelo sol que desaparece entre as sombras das árvores, todos os dias. E os meses são marcados pelas frutas que caem no chão, ou pelas que esperam mãos cuidadosas para serem colhidas.
As rugas no seu rosto lhe dariam notícias de quantos anos se passaram. As quatro linhas da glabela, profundas e tortas, denunciam as muitas noites que passou em claro, de quando acordar sem um amor era doído. Os finos pés de galinha, cinco riscados de cada lado, guardam a memória do seu sorriso grande, que nunca mais apareceu. O bigode chinês pesa fundo em suas bochechas e some apenas quando a boca se abre para que sons guturais sejam expulsos da garganta, em momentos de gozo.


